Grandes empresas de inteligência artificial estão erg uendo megacentros de dados próximos a regiões produtoras de gás natural, recorrendo diretamente a combustíveis fósseis para suprir a crescente demanda de energia. A tendência recoloca a técnica de fraturamento hidráulico (fracking) no centro do debate climático e provoca apreensão em comunidades afetadas.
Complexo de 2 GW em área de 500 acres no Texas
O exemplo mais recente é o projeto Horizon, anunciado pelo Wall Street Journal nesta semana. A startup Poolside, desenvolvedora de assistentes de código por IA, está construindo um centro de dados em mais de 500 acres no oeste do Texas, cerca de 480 km a oeste de Dallas. O local, equivalente a dois terços do Central Park, gerará sua própria eletricidade usando gás extraído da Bacia do Permiano, a maior província petrolífera e gasífera dos Estados Unidos. Serão dois gigawatts de capacidade computacional — potência similar à da represa Hoover, mas alimentada por gás fraturado. O empreendimento é tocado em parceria com a provedora de nuvem CoreWeave, que disponibilizará mais de 40 mil GPUs da Nvidia.
Stargate: OpenAI admite uso de gás
No mês passado, Sam Altman, presidente-executivo da OpenAI, visitou o Stargate, centro de dados da empresa em Abilene (Texas), a cerca de 320 km da Bacia do Permiano. “Estamos queimando gás para operar este data center”, afirmou. O complexo precisa de aproximadamente 900 MW distribuídos em oito prédios e contará com uma usina própria a gás, dotada de turbinas semelhantes às de navios de guerra. Segundo a companhia, a planta funcionará como reserva, enquanto a maior parte da eletricidade virá da rede local, abastecida por uma mistura de gás natural, parques eólicos e usinas solares.
Moradores temem impactos em terra e água
Vizinhos relatam mudanças bruscas na paisagem. Arlene Mendler, que vive em frente ao Stargate, disse à Associated Press que buscava tranquilidade quando se mudou para a área há 33 anos. Hoje, convive com barulho de obras e luzes intensas após a derrubada de vegetação nativa. A escassez de água agrava a preocupação: reservatórios locais estavam pela metade durante a visita de Altman, e a cidade restringiu a irrigação residencial a dois dias por semana. A Oracle, responsável pelos sistemas de resfriamento fechados do Stargate, calcula que cada prédio gastará 12 mil galões de água por ano após um preenchimento inicial de 1 milhão de galões. Para o professor Shaolei Ren, da Universidade da Califórnia em Riverside, o número ignora o consumo indireto de água nas usinas que geram a energia adicional exigida.
Meta investe US$ 10 bi na Louisiana; El Paso terá usina “100% renovável”
A Meta segue estratégia parecida. Em Richland Parish, região mais pobre da Louisiana, a empresa planeja um centro de dados de US$ 10 bilhões, área equivalente a 1.700 campos de futebol e demanda de 2 GW apenas para computação. A concessionária Entergy deve gastar US$ 3,2 bilhões na construção de três usinas a gás, totalizando 2,3 GW, abastecidas por gás fraturado do xisto Haynesville. Moradores relatam incômodo permanente com caminhões e máquinas.
Paralelamente, a Meta anunciou nesta semana um novo complexo de US$ 1,5 bilhão em El Paso (Texas), perto da fronteira com o Novo México, com 1 GW de capacidade previsto para 2028. Segundo a companhia, toda a energia será compensada por fontes renováveis.
xAI e cadeia de suprimento do fracking
Instalações da xAI, empresa de Elon Musk, também dependem de gás fraturado. A Memphis Light, Gas and Water, que vende eletricidade ao data center da xAI e futuramente controlará as subestações construídas pela empresa, adquire gás no mercado spot e o transporta por oleodutos operados pelas companhias Texas Gas Transmission e Trunkline Gas Company — ambas abastecidas por formações de xisto exploradas por fracking.
Competição com a China e incentivo federal
Chris Lehane, vice-presidente de assuntos globais da OpenAI, defende que os Estados Unidos precisarão gerar cerca de 1 GW de energia adicional por semana para acompanhar a expansão chinesa, que, segundo ele, adicionou 450 GW e 33 usinas nucleares no último ano. Em julho de 2025, uma ordem executiva do governo Trump acelerou licenças ambientais para data centers movidos a gás, carvão ou energia nuclear, oferecendo incentivos financeiros e acesso a terras federais, mas excluindo fontes renováveis.

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Estudo indica capacidade ociosa nas redes elétricas
Pesquisa da Universidade Duke revela que as concessionárias utilizam em média 53% de sua capacidade anual. Se os data centers reduzissem o consumo pela metade durante os picos anuais — por algumas horas —, as redes poderiam acomodar mais 76 GW, acima dos 65 GW projetados para 2029, segundo o MIT Technology Review. A flexibilização poderia adiar a construção de novas usinas a gás.
Contratos de 15 anos e incertezas futuras
A Meta garantiu à Entergy o pagamento dos custos de geração na Louisiana por 15 anos, mesmo horizonte do acordo de locação entre Poolside e CoreWeave. Não está claro quem arcará com os investimentos quando esses contratos expirarem.
Aposta em alternativas limpas ainda distante
Enquanto startups de reatores modulares e fusão nuclear atraem recursos de investidores como Nvidia e o próprio Altman, analistas apontam que a adoção em larga escala pode levar décadas. Até lá, comunidades locais arcam com impactos ambientais e financeiros de uma expansão energética que não solicitaram.
Palavras-chave: IA, data centers, gás natural, fracking, Texas, OpenAI, Meta, Poolside, xAI, energia
Com informações de TechCrunch





