Jacarta / Lombok – O governo da Indonésia intensificou o plano de transformar a ilha de Lombok em um destino turístico de grande porte, processo apelidado de “Bali-ficação”. A estratégia inclui a construção de resorts, um circuito de MotoGP e novos empreendimentos em Mandalika, região sul da ilha, mas tem provocado despejos, críticas de organizações de direitos humanos e preocupações ambientais.
Mandalika vira vitrine do novo projeto
Entre 2019 e 2021, dezenas de famílias foram removidas de suas casas para a construção do Circuito de Mandalika. O local recebeu, no início de outubro, cerca de 150 mil espectadores para o Grande Prêmio de Motociclismo. Surfistas, como o guia local Damar, de 39 anos, perderam suas residências nesse processo. “Fiquei com raiva, mas não posso lutar contra o governo”, disse o profissional, que hoje ganha o dobro do antigo salário de pescador ao trabalhar com turismo.
A estatal InJourney Tourism Development Corporation (ITDC) lidera o projeto e já garantiu 2,1 trilhão de rúpias (US$ 128 milhões) para erguer um hotel de luxo na praia de Tanjung Aan, também em Mandalika. O financiamento global inclui ainda um empréstimo de US$ 250 milhões do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura.
Despejos e denúncias
No dia 15 de julho, forças de segurança demoliram quase 200 barracas comerciais em Tanjung Aan, atingindo comerciantes como Kartini Lumban Raja e Ella Nurlaila. Especialistas da ONU estimam que mais de 2 mil pessoas “perderam o principal meio de subsistência da noite para o dia”, sem aviso adequado ou plano de reassentamento.
O ITDC afirma que a área é “terreno estatal” e que o pagamento de taxas pelos comerciantes “não representa posse legal”. Já a organização Just Finance International aponta um “padrão de violações de direitos” associado ao desenvolvimento de Mandalika.
Expansão rápida e impactos culturais
Localizada a leste de Bali, Lombok recebeu 81,5 mil turistas estrangeiros em 2022, alta de 40% em relação ao ano anterior, mas ainda longe dos 6,3 milhões que visitaram Bali. Para receber esse público, a cidade de Kuta, em Mandalika, trocou pousadas simples por resorts com piscinas e até escola internacional.

Imagem: Internet
A ilha, majoritariamente muçulmana e lar do povo Sasak, teme pressões sobre costumes locais, como o uso de trajes mais recatados e a oferta limitada de álcool. Ambientalistas também alertam para o lixo: a etapa de MotoGP de 2022 gerou 30 toneladas de resíduos.
Moradores divididos entre renda e nostalgia
A expansão turística atrai investidores estrangeiros, como o norte-americano Andrew Irwin, coproprietário do LMBK Surf House, e estimula o empreendedorismo local. A anfitriã Baiq Enida Kinang Lare, conhecida como Lara, abriu uma hospedagem em 2014 com quatro quartos; hoje soma 14 e constrói uma vila. Mesmo assim, diz sentir falta da antiga tranquilidade: “O tempo voa porque estamos ocupados”.
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Com informações de BBC News





